
EXCERTOS DE
'Slogan, a arte (urbana) de dizer coisa com coisa (na cidade)'
FESTIVAL 'LISBOA CAPITAL REPÚBLICA POPULAR' 2011
Na cultura artística contemporânea, alguns autores, no seu regresso ao real, quiseram dar ao linguistic turn, que trouxe para a arte uma consciência aguda do papel do discurso na experiência artística, o desafio comunicacional. Foi assim que entraram no jogo dos slogans, uns mais activistas, outros redutos de pensamento (statements em forma de slogans). Nos anos 60, manifestaram-se em frente ao MOMA com cartazes apregoando: DEMOLISH SERIOUS CULTURE! DEMOLISH ART MUSEUMS! NO MORE ART! Nos anos 70, investigaram a propriedades espaciais da linguagem e o conflito permanente entre o signo e o real, pichando na parede: 1. LANGUAGE IS NOT TRANSPARENT . Nos anos 80, atiraram, em cartazes e nas páginas de jornais: Your body is a battleground, We don’t need another hero (onde é que eu já ouvi isto?), I shop therefore I am … ou intervieram nos painéis publicitários de Nova Iorque confessando Protect me from what I am, ou abuse of power comes as no surprise … Com muita frequência, estes fugazes encontros de todos nós com a arte da palavra escrita dão-se porém em templos sagrados (as galerias de arte e museus, o contexto da arte). Ou então, são propostas herméticas, que aprisionam o slogan na forma do aforismo iluminado: Everything is going to be alright …
[As referências são a intervenções e obras de Jack Smith, Tony Conrad e Harry Flynt, Mel Bochner, Barbara Kruger, Jenny Holzer e Martin Creed]
A verdade é que alguns artistas nossos contemporâneos mergulharam neste mundo fugidio dos slogans para comunicar, aqui e agora. As suas frases – aplicadas em posters e cartazes, traduzidas em dispositivos tecnológicos electrónicos – são ora ambíguas e poéticas, ora eminentemente produtivas e construtivas nas suas proposições. Conscientes da materialidade inevitável do texto, que é sempre um dito de alguém, sobre qualquer suporte-superfície, tendo-se em conta um determinado contexto em toda a sua complexidade, para estes artistas um slogan é um semear de ideias na nossa mente. Tirando partido das estratégias publicitárias (que desde os anos 60 predaram o campo da arte, diga-se de passagem), estes artistas (Maçãs de Carvalho com Porque é que existe o ser em vez do nada, em 2001; Dalila Gonçalves com Quem pássaros receia / milho não semeia, em 2007) trabalham os textos a partir das figuras do desafio, do enigma, do aforismo, lembrando-nos constantemente que a leitura é o nosso mais nobre contacto com a inteligibilidade do real (parece um slogan!…).
Se, no tecer da cidade, são relativamente raros os artistas que têm inscrito os seus slogans com regularidade e programa, os ingleses Freee (Mel Jordan, Andy Hewitt e Dave Beech) são a excepção. Constituem uma poderosa máquina grafo-visual de produção de outdoors, anúncios e manifestos, actualizando a tradição da arte crítica e o encontro entre arte e texto com notável impacto no logos da arte. Os Freee dedicam ao espaço público – a vida entre os edifícios – uma atenção especial. O ‘sabor’ do seu trabalho, que a ser reduzido à arte perderia paradoxalmente esse estatuto excepcional, é a sua capacidade de ser simultaneamente pensamento teórico, manifestação de revolta (activismo), irónica expressão de cultura (a sua relação de pastiche com a linguagem das primeiras vanguardas) e finalmente a capacidade de introduzir a sua reflexão meta-instrumentalmente na forma urbana. O humor contundente é ‘apenas’ a cereja no topo do bolo.
Em Dezembro de 2005, os Mel Jordan e Andy Hewitt apresentaram-se em Lisboa para uma palestra que deixa claro ao que vinham: Our practice is concerned with the discourse around arts social potential and its relationship to public space and public sphere. […] We are also preoccupied with the question of social change and its relationship to how we regard and understand notions of utopia. Muito envolvidos com o que chamam a indústria da arte pública , falaram sobre o seu projecto The Functions em que estes artistas vão entregar ao slogans a responsabilidade formal da inscrição retórica no espaço urbano. No terreno ambíguo do texto situado, entre teoria e propaganda, é isso que afirmam frases como The economic function of public art is to increase the value of private property, que coloca a questão do papel da arte pública na regeneração económica das cidades pós-industriais. Ou The social function of public art is to subject us to civic behaviour. Ou The neo-imperialist function of public art is to clear a path for aggressive economic expansion… Muitas das questões que estas frases inscritas na cidade levantam foram entretanto estabilizadas pelo urbanismo crítico. Elas laboram no núcleo argumentativo acerca do sentido da arte na cidade. Funcionam quase como ‘arte povera’ do discurso, mas denunciam uma capacidade de síntese específica da filosofia ou da política. E certamente uma verve poética do pensamento.
E então, será o slogan poético o máximo possível da comunicação do social na cidade? A superação livre e expressa dos limites quotidianos da linguagem enquanto arte total da urbanidade?
Mais próximo de nós, há outro criador que nos convoca para a epifania do social através do texto curto na cidade. 8!8!8! é o nome de uma campanha política realizada pelo artista plástico Pedro Penilo. A obra foi apresentada em 2008 e desde então tem surgido em espaços públicos seleccionados – o mais emblemático dos quais a manifestação do 1.º de Maio, em Lisboa, à Alameda. O tema não poderia ser mais actual. Perante o que o artista qualifica de nova escravatura, em que se conjugam com grande eficácia os mecanismos de produção de reservas de desempregados, de extrema desregulação das relações de trabalho e de captura dos salários pelos sistemas de crédito, com o controlo e manipulação dos sistemas de produção e intermediação de cultura, informação e ideologia, de um modo digno de uma descrição de Orwell, a sua proposta é a de revisitar uma ‘velha’ reivindicação marxista, o slogan dos “três oitos” – 8 horas de trabalho, 8 horas para dormir, 8 horas para fazer o que se quiser!
Como? Precisamente num território intermedia entre a publicidade e a política , o design (uma linguagem de pictogramas, relacionando uma cultura visual genérica/global e o que são nitidamente imagens pessoais) e a poesia (a formulação poética de conceitos-chave para uma emancipação que corresponde às aspirações mais urgentes dos homens e mulheres manietados por este estado de crise geral e subversão de pilares da civilização (Penilo). Será absurda a pretensão (uma vez que o assunto, apesar de tão premente, tarda em aflorar aos debates da política institucional)? Será heróica a tentativa (uma vez que é o artista a sacrificar o seu tempo, a sua imaginação, a sua expressão em nome da liberdade da necessidade )? Será absurda a estética escolhida para a manifestação (o ascetismo minimal contra o photoshop)? Mas e isso que importa, quando o que o artista o que faz é desde logo, consciente dos limites da sua função social, enviar um recado duplo, não apenas para o público em geral, mas para o público secundário que são os seus colegas artistas? Afinal, somos corpo, produtoras todas as mãose este não será um tempo de escravos. Acordai! Estes cartazes dizem-nos.
Mário Caeiro (Foto: Sara Gonçalves)
LINKS
http://oitooitooito.blogspot.com




