
Um ensaio poético de João Abel sobre Pedro PeniloEra uma flor circular com belas pétalas apostas à volta do círculo do rosto, ligeiramente esférico, como um pequeno umbigo.
O caule verde, onde se apoiavam folhas como mãos, abertas num pequeno gesto de exclamação, descrevia o arco ténue quase linha, Sendo fino, mas de aparência forte, estabelecia uma relação de tensão com a cabeça bem formada e ampla, ladeada por pétalas amarelas, a contrastar com o negrume do botão.
Tinha por única missão sobreviver no meio que a natureza lhe destinara: um solo que sugava líquidos, um ar que transpirava e oscilava e um astro cimeiro que ditava a energia.
Era neste que ela se fixara, como uma flor exaltada seguia-lhe o rasto de dia, com as mãos prostradas, o pescoço inclinado, a fronte escura ao alto, sempre alerta ao subtil desfilar do tempo.
Ao astro competia irradiar a vida sob forma de claridade.
Por vezes o ar interpunha-se tornando-se baço e opaco, compensando a sua irreverência com vertências essenciais, que o solo em pouco tempo se encarregava de subtrair à sede.
O escuro da não-luz era o seu descanso. As mãos pétalas recolhiam ao peito, juntando-se em oração, como que a pedir ao adorado astro para dela se lembrar e em manhã despontar.
Os sonhos que a cercavam eram da imensa multidão de irmãos e irmãs, que dando as mãos em marcha se punham, fugindo do jugo do astro pai, sem recear morrer, antes rindo de alegria e dando vivas pela nova liberdade alcançada.
Um dia ao acordar viu surgir-lhe na memória dos olhos o sonho da liberdade imaginada. Foi a primeira vez que lhe acontecera lembrar-se do que sonhara, mas foi bastante para o sonho relatar ás suas companheiras mais chegados, que propagaram a nova ideia resgatada à escuridão.
De súbito deu-se um fenómeno que jamais as flores de todo o mundo haveriam de esquecer, todas se viraram, já não para o Deus Sol, mas para a flor intrépida que ousara sonhar para lá do girar repetitivo e monótono que a natureza lhe engendrara.
Para que todas as outras a pudessem ver as que estavam mais próximas decidiram ergue-la aos ombros, outras ainda pegaram nas primeiras, e assim sucessivamente, até que do alto de uma torre já suficientemente alada, todas as flores do mundo se sentissem ao alcance deste novo astro.
A Flor Astro sentiu-se inebriada pelas incumbências que a nova natureza lhe destinara.
Ordenou dias de festa, banquetes inesquecíveis, palácios de trabalhos imensos, rios de ouro escavados no solo outrora ingrato.
Em meio de tanto trabalho e afazer das flores amarelas, decidiu que as outras flores e animais deveriam ajudar ao modo de vida generoso com que daqui em diante se queriam comprazer todas as flores amarelas, não esquecendo nunca as suas irmãs e irmãos no sangue universal, embora não amarelo.
Iniciou-se assim um novo tempo de girar. Todos os seres do mundo a pouco e pouco se acomodaram em pequenos círculos, direccionando-se na direcção de um pequeno astro, que por sua vez se virava, para um astro um pouco maior, posicionado mais acima numa escadaria deslumbrante e bela, que conduzia à nossa flor outrora serva do Deus Sol.
À sua batuta de maestro invisível as várias roldanas punham-se a girar dando azo ao movimento do mundo, como uma imensa máquina de rodas dentadas encaixadas entre si, girando nos mais diverso sentidos, sempre convictas de ser a direcção e o sentido certos.
Assim as flores se tornaram dentes em rodas fantásticas, que ao girar emitiam o som do sonho original de liberdade, mas embrulhado em ouro e de sabores equiparáveis aos frutos dos Deuses, não interessando já a luz do dia ou o escuro da noite, pois que ao sonho pouco interessa se mãos que dantes recolhiam ao peito em sinal de prece, agora mais não são que asas desencontradas num voo espavorido, nem que rostos ao alto, outrora humildes em suor pobre, se tenham fixado em expressões retesadas por a fé haver sido depositada em cestos urdidos com aço cortante, que sobre as costas lhes assentam e lágrimas ocultas fazem verter.
E foi então que as mãos se começaram a cerrar com a fúria do esforço empregue no girar das roldanas, e se começaram a erguer punhos ao alto, provocando cada vez mais pontos de emperro na enorme engrenagem, até ao ponto de um ruído de bigorna se formar pela impossibilidade das engrenagens girarem.
Era um ruído surdo mas ritmado e retumbante. Como os ruídos do nascer do mundo, em que novas montanhas surgirão, rios mudarão de direcção, frutos cairão ao chão espezinhadas por multidões em desabrido furacão.
Ainda assim as novas flores sentar-se-ão à soleira da porta em final do girar de mais um dia, e sonharão de novo por ambicionados cestos de âmbar, macio e tenro, cheios de frutos e iguarias.
Virar-se-ão para uma nova direcção brilhante e o sonho cantarão em melodias de pautas já escritas, mas entretanto no tempo esquecidas.
João AbelFUNDAMENTAL ACOMPANHAR:http://oitooitooito.blogspot.com/